A CRUZADA DO DESCOBRIMENTO


           No início do séc. XV, Portugal era um reino pobre. A riqueza estava na Itália, Alemanha e em Flandres (Bélgica/Holanda).Como os lusitanos encabeçaram a expansão européia?
A rica Ordem de Cristo foi o seu trunfo. Fundada por franceses em Jerusalém em 1119, com o nome de Ordem dos Templários.

Conquistada pelos cristãos na Primeira Cruzada em 1098, Jerusalém estava de novo cercada pelos árabes em 1116. Foi quando os nobres franceses Hugo de Poiens e Geoffroi de Saint-Omer juraram, na Igreja do Santo Sepulcro (o templo dos cristãos), viver em perpétua pobreza e defender os peregrinos que vinham a Terra Santa. Nascia a Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo, renomeada em 1119 como Ordem dos Cavaleiros do Templo, cujo símbolo da pobreza era dois cavaleiros em um só cavalo. As normas da Ordem eram secretas e só conhecidas, na totalidade, pelo comandante-em-chefe (o grão-mestre) e pelo Papa.

Desde o início, os Templários foram desobrigados a obedecer aos reis. Podiam, assim, ter interesses próprios. Ritos de iniciação marcavam as promoções de seus membros. Foi essa estrutura que permitiu, mais tarde, a Ordem de Cristo manter secreto os conhecimentos de navegação no Atlântico.

A Ordem acabou transferindo-se para Portugal em 1307, época em que o Rei da França desencadeou uma das mais sanguinárias perseguições da história: Felipe IV, o Belo, devia dinheiro à Ordem dos Templários. Esses franceses eram os mais poderosos da Europa. Controlavam feudos e construções no interior e em Paris, fruto de propriedades recebidas por doação ou herança. Entre essas, o Templo, um conjunto de Igrejas e oficinas que, reformado em 1319, virou o presídio da Bastilha, mais tarde destruído durante a revolução francesa.

As derrotas no Oriente médio alimentaram calúnias em que os cavaleiros tinham feito acordos com os muçulmanos. Aproveitando-se do clima, em 13 de outubro de 1307, Felipe invadiu as sedes templárias em toda a França. Só em Paris foram detidos 500 cavaleiros, muitos sendo degolados. Dois processos foram abertos: um dirigido pelo rei contra os presos e o outro pelo Papa Clemente V contra a Ordem. O papa era francês, morava em Avignon e era aliado do rei francês.

Torturas e confissões foram arrancadas pela Inquisição. O sigilo da Ordem foi usado contra ela mesma e as etapas dos rituais de iniciação foram convertidas em monstruosidades. Os santos guerreiros foram acusados de cuspir na cruz, adorar o diabo, cultuar Maomé, manter relações homosexuais e queimar crianças. Todos os seus bens foram confiscados.

Esperava-se uma grande fortuna, mas como pouco foi efetivamente recolhido, criou-se a lenda de que os tesouros teriam sido transferidos em segurança para outro país, que seria Portugal. O rei D. Diniz (1261-1325) de Portugal decidiu garantir a permanência da Ordem em  suas terras: uma doação formal de seus bens à Coroa, mas nomeou um administrador templário para cuidar deles. Nem o processo papal, nem a execução do grão-mestre Jacques de Molay em 1314 o intimidaram.

Em 1317 reiterando que os templários não haviam praticado crimes em Portugal, D. Diniz transferiu todo o patrimônio dos cruzados para uma nova ordem recém-criada: a Ordem de Cristo. Assim, Portugal virou refúgio para perseguidos em toda a Europa. O castelo de Tomar virou a caixa forte dos segredos que a Inquisição não conseguiu arrancar.

Dois anos depois, em 1319, um novo papa, João XXII, reconheceu a Ordem de Cristo.
Começava para os cavaleiros uma nova era, com uma nova missão. Nas primeiras décadas de existência da Ordem de Cristo, os ex-templários estabeleceram estaleiros em Lisboa, fizeram contratos de manutenção de navios e dedicaram-se à tecnologia náutica. Ao mesmo tempo, preparavam planos para voltar à ação, contornando a África por mar e, aliando-se a cristãos orientais, expulsar os mouros do comércio de especiarias.

Em 1416, quando assumiu o cargo de grão-mestre, D. Henrique lançou-se à diplomacia. Passaram cem anos desde que os templários haviam sido condenados nos processos de Paris e o Vaticano estava preocupado com a pressão muçulmana sobre a Europa. Com isso, em 1418, o infante consegue do papa um aval ao projeto expansionista. Daí em diante, cada avanço para o sul e, para o oeste, será seguido da negociação de novos direitos.

Em um século, os papas emitiram onze bulas privilegiando a Ordem com monopólios da navegação na África, posses de terras, isenção de impostos eclesiásticos e autonomia para organizar a ação da Igreja nos locais descobertos. No Marrocos, os novos cruzados atacaram Tânger, em 1437, e Alcáter-Ceguer, em 1458. O ímpeto guerreiro preponderou sobre o mercantilismo real até 1461, quando o cavaleiro Pedro Sintra encontrou ouro na Guiné.

À medida que foi sendo consolidado o comércio na rota das Índias, a partir da sua descoberta em 1498, a coroa foi observando gradualmente os poderes da Ordem. Até que em 1550 o rei D. João III fundiu as duas instituições. Com isso, o grão-mestre passa a ser sempre o rei de Portugal, e seu filho tem direito de sucedê-lo também no comando dos cruzados.

A Ordem de Cristo controlou o conhecimento das rotas e o acesso às tecnologias de navegação enquanto pode. Mas com o ouro descoberto na Guiné, o monopólio da pilotagem passa a ser cada vez mais desafiado. Multiplicaram-se os contratos com comerciantes e as cessões de domínio ao rei para exploração das regiões descobertas. Aos poucos, a sabedoria secreta guardada em Tomar foi sendo passada para mercadores de Lisboa, Flandres e Espanha.

Portugal, naquela época, fervilhava de espiões italianos, espanhóis e outros, que procuravam os preciosos mapas ocultados pelos cruzados. Enquanto o tesouro de dados marítimos esteve sob sua guarda, a Ordem garantiu a exclusividade para os portugueses. Haviam preciosidades, como relatórios reservados de pilotos que haviam percorrido regiões desconhecidas e outras, como as tábuas de declinação magnética, que permitiam calcular a diferença entre o pólo norte magnético que aparecia nas bússolas, e também novos mapas de navegação, à medida que essa avançava no Atlântico, orientados pelas estrelas do Hemisfério Sul.

Mas o sucesso atraía a competição da Espanha, tradicional adversária, que fazia política no Vaticano para minar o monopólio da Ordem. Em 1480, depois de vencer Portugal numa guerra de dois anos na fronteira, os reis Fernando, de Leão, e Isabel, de Castela, começaram a se interessar pelas terras d'além-mar. Com a viagem vitoriosa de Colombo à América em 1492, o papa Alexandre VI, um espanhol de Valencia, reconheceu em duas bulas, as InterCaetera, o direito de posse dos espanhóis sobre o que o navegante genovês havia descoberto. E rejeitou as reclamações de D. João II de que as novas terras pertenceriam a Portugal.

O rei ameaçou com uma nova guerra, controvérsia induzindo os dois países a negociarem, na Espanha em 1494 um tratado para dividir o vasto mundo novo que todos pressentiam: o Tratado de Tordesilhas.

O cronista espanhol das negociações, frei Bartolomeu de las Casas no livro História de las Índias, escreveu : "Ao que julguei, tinham os portugueses mais perícia e mais experiência daquelas artes, ao menos das coisas do mar, que as nossas gentes". Sem dúvida, vantagem dada pela estrutura secreta da Ordem. Graça ao sigilo, a Ordem sabia da existência das terras na parte do globo onde hoje está o Brasil, sete anos antes da viagem de Cabral. E, trinta anos antes da viagem de Colombo, todos os mapas lusitanos mostravam ilhas com o nome de "Antílias", a oeste de Cabo Verde.

Cabral não possuía experiência como navegador, mas tinha grande valor militar. Sua missão, por ser cavalheiro da Ordem de Cristo, herdeira dos Templários, era a de criar uma feitoria na Índia e, no caminho, tomar posse de uma terra já conhecida, o Brasil.

Ao chegar à Índia, bombardeou durante 15 dias o porto de Calicute. Era indispensável sua presença à frente do empreendimento, porque só a Ordem de Cristo, uma companhia religiosa-militar autônoma do Estado, tinha autorização papal para ocupar - tal como nas cruzadas - os territórios tomados dos infiéis (os índios).

O cavalheiro Cabral cumpriu a primeira parte da tarefa. Levantou onde hoje é Porto Seguro a bandeira da Ordem, uma cruz Templária, derivada da cruz Copta, que ainda hoje está em alguns símbolos, como por exemplo, em um brasão do município de SP. O futuro do país estava sendo formalmente incorporado às propriedades da organização.

O escrivão Pero Vaz de Caminha, escreveu ao Rei sobre a solenidade: "Ali estava com o capitão a bandeira da Ordem de Cristo", com a qual saíra de Belém, e que sempre esteve alta".
Atrás das descobertas dos novos cruzados, vinham riquezas que faziam a grandeza da glória do reino de Portugal.

Diz a tradição que o nome Brasil vem de pau-brasil, madeira cor-de-rosa. Mas, desde 1339, o nome Brasil aparece em mapas. No século XIV, os planíferos dos cartógrafos Mediceu, Solleri, Pinelli e Branco mostravam uma ilha Brasil, sempre a oeste dos Açores. O historiador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda acreditava que a origem do nome é uma lenda céltica que fala de uma "terra de delícias", vista entre nuvens.

A primeira carta geográfica onde aparece referência segura ao Brasil real é o mapa de Cantino. Nele se podem ver papagaios, florestas e o contorno do litoral desde o norte até o sudeste. O Trabalho foi encomendado pelo espião italiano Alberto Cantino, em 1502, a um cartógrafo de Lisboa e enviado ao seu senhor, o duque de Ferrara.

É um mistério onde ele foi feito. Afinal, as únicas viagens oficiais de espanhóis e portugueses ao Brasil até 1502 foram as de Vicente Pinzón, ao estuário do Amazonas, e Cabral, até onde hoje é a Bahia. Como explicar, então, a presença na carta do desenho do litoral desde Cabo Frio até o Amazonas? Fruto provável do suborno do cartógrafo, a se julgar pela conta salgada apresentada por Cantino ao duque, o mapa deixa claro que já havia conhecimento profundo das terras a oeste do Atlântico.

Além de 4.000 quilômetros de litoral brasileiro, aparecem no mapa a Flórida, a Terra Nova (Canadá) e a Groelândia. Historiadores acham que Duarte Pacheco Pereira, o navegador que negociou Tordesilhas, deixou indicações de que esteve no Brasil. Teria visitado a costa do Maranhão e a foz do Amazonas em 1498, quatro anos depois de Tordesilhas.
A única certeza é que entre a versão e  o fato,  agiam em sigilo os cavaleiros da Ordem de Cristo, cuja documentação jamais foi encontrada.

Arnaldo D. Barolo
e-group Teosofia

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