DISCURSO DO GRÃO-MESTRE NA SESSÃO MAGNA DE TRANSMISSÃO DE CARGO

A cerimônia pública que acabamos de vivenciar deve lhes permitir erguer um pouco os véus.

Ela remonta a quase 300 anos, quando a maçonaria inglesa se estruturou no sistema atual de Grandes Lojas.

Mas incorpora, a rigor, vestígios de uma celebração muito mais antiga, cujas origens se situam milhares de anos no passado.

Essas práticas, parte dos ensinamentos transmitidos em nossas Lojas, constituem o arcabouço de um sistema de ensino muito especial, cujo supremo objetivo é o aperfeiçoamento do homem e, a partir daí, o bem estar da humanidade.

Pois é para aprofundar um pouco mais essas respostas, que decidi lhes falar, hoje, de HERANÇAS e de DESAFIOS.

Meus amigos, meus Irmãos:

Antes mesmo de buscar compreender a Maçonaria, talvez seja mais proveitoso buscar conhecer o Maçom.

E, em lugar de procurar saber se este ou aquele indivíduo é maçom, busquemos responder à indagação mais abrangente: o que é um Mestre Maçom?

O homem que idealizamos, o produto final de nossa obra, aquele que atingiu o ápice da caminhada, Senhoras e Senhores, mostra uma profunda REVERÊNCIA ante o Grande Arquiteto do Universo, que é o Deus de cada um de nós, e perante todas as Suas obras.

Isso se traduz em RESPEITO por toda criatura viva, respeito pelas terras, pelas águas, pelo planeta que nos foi dado como habitat. Isso se manifesta de forma prática no seu comportamento na família, na sociedade, em sua igreja, com seus amigos e até mesmo com eventuais desafetos.

BENEVOLÊNCIA é outra qualidade que cultuamos; e não somente atos de caridade, com que aliviamos a angústia de um ser humano caído, de sua viúva, de um ódio.

BENEVOLÊNCIA significa literalmente “desejar o bem”, e para um Mestre Maçom é a atitude de interesse útil e genuíno por todo membro desta enorme família que é o gênero humano.

TOLERÂNCIA também caracteriza o verdadeiro Mestre Maçom – e não apenas a tolerância que sofre ou suporta o que nos é hostil ou desagradável, mas aquela disposição de partilhar os fardos um do outro, que nos permite entender e aceitar as razões daqueles de quem discordamos.

Uma vez que a Maçonaria se empenha tão acerbamente pela Liberdade, tanto política como espiritual, o Mestre Maçom sabe da necessidade de absoluta tolerância mútua, se os homens hão de viver em Liberdade e com Justiça. Pois “é a tolerância que torna possível a diferença; e é a diferença que torna necessária a tolerância “.

RESPEITO à ciência e ao conhecimento faz parte igualmente de uma atitude de reverência maior, que o Mestre Maçom dedica à excelência, em todas as suas formas.

Um Mestre tem a coragem de insistir na busca da perfeição, quer esteja lidando com humildes trabalhadores, ou no governo, ou em negócios da comunidade. Ele reverencia todo o conhecimento e experiência que ajudaram os homens, em todos os lugares, a alcançar a excelência.

O verdadeiro Mestre Maçom não se dá por satisfeito apenas com a “média”: ele ousa ser melhor que isso.

Nosso antepassado, um Mestre pedreiro operativo, à época da construção das grandes catedrais góticas, era treinado individualmente para ser um arquiteto ou um inspetor dos trabalhos.

Ele era um homem de VALOR e de DIGNIDADE.

O Maçom Especulativo do Terceiro Milênio deve ser treinado também, individualmente, para ser um Mestre, mas das habilidades morais e espirituais dos Construtores da Fraternidade. A sua permanente busca por excelência é que vai torná-lo, por sua vez, um homem de valor e dignidade.

Nas palavras de Drummond:

“O Mestre na arte da vida faz pouca distinção entre o seu trabalho e o seu lazer, entre a sua mente e o seu corpo, entre a sua educação e a sua recreação, entre o seu amor e a sua religião. Ele dificilmente sabe distinguir um corpo do outro. Ele simplesmente persegue sua visão de excelência em tudo que faz deixando para os outros a decisão de saber se está trabalhando ou se divertindo. Ele acha que está sempre fazendo as duas coisas simultaneamente”.

Em Maçonaria costumamos dizer que pelo trabalho do Aprendiz se conhece o Mestre, e pelo trabalho do Mestre se reconhece a Loja.

Se nos primórdios de nossa história este reconhecimento era possibilitado pelas marcas peculiares que cada Mestre gravava em suas obras, nestes tempos em que vivemos as marcas que nos permitem conhecer um Mestre Maçom são aquelas que enumerei:

Assim, meus amigos, meus Irmãos, conhecido o que é um Mestre Maçom, começa a se resolver o grande enigma, e todas as perguntas encontrarão naturalmente suas respostas.

Por isso já posso me atrever a lhes falar de nossas HERANÇAS.

Somos não apenas os legítimos herdeiros de gerações e gerações de homens notáveis.

Somos os depositários e zeladores dos princípios que os nortearam a servir à humanidade, dando muitas vezes a própria vida em penhor de conquistas sociais e espirituais de que hoje todos nós desfrutamos.

Estamos apoiados sobre ombros de gigantes, e temos, portanto, a obrigação de descortinar mais longe.

Antes de nós , estes mesmos aventais foram vestidos com orgulho e devoção por:

Essa herança há que ser honrada por nós, e há que ser transmitida intacta aos maçons que nos sucederem.

Para que sejamos dignos da tarefa, miramos constantemente os sábios exemplos do passado, sem nos descuidarmos dos DESAFIOS do futuro.

Pretendemos pautar nossa ação nestes próximos quatro anos pelas palavras imortais de Hipólito José da Costa, o maçom brasileiro que foi Grão-Mestre Provincial na Inglaterra, fundador do “Correio Braziliense”, em Londres, em 1808, um dos construtores de nossa independência, que afirmava:

“o primeiro dever dos homens em sociedade é de ser útil aos seus membros; e cada um deve, segundo as suas forças físicas ou morais, empregar, em beneficio á mesma, os conhecimentos, ou talentos, que a natureza, a arte ou a educação lhe prestou” .

É por demais reconhecido que vivemos tempos difíceis. O Brasil enfrenta o seu ordálio, posto à prova nesse vestibular para ingresso no exclusivo clube dos países lideres. A globalização, acenada como panacéia universal, revelou-se perigosa trilha, sem volta, que pode conduzir ao cume da montanha ou nos fazer resvalar para os abismos da desestruturação do Estado brasileiro.

A busca de soluções nos apresenta unia miríade de desafios – não há respostas prontas ou caminhos mais fáceis.

Nesse contexto, é de se assinalar um trecho do discurso do presidente Luis Inácio Lula da Silva, na cerimônia de lançamento da Conferência Nacional do Meio Ambiente, no último dia 5 de junho.

DIrigindo-se ao Ministro da Educação, Professor Cristóvão Buarque, o Presidente afirmou que “se nós quisermos fazer unta grande revolução neste país, sem precisar dar um único tiro ou ferir qualquer pessoa, a gente faz essa revolução a partir da FAMÍLIA e a partir do banco de uma ESCOLA”.

Emblemática e feliz essa afirmação do Presidente. E, para nós, que acabamos de assumir o leme desta grande nau maçônica, é a reafirmação das prioridades que vimos apontando nos últimos meses. FAMÍLIA E EDUCAÇÃO, eis o binômio em que iremos concentrar os nossos maiores esforços.

O lar, a FAMÍLIA, é o laboratório do caráter, e a mulher, a mãe, é sua guardiã. Se tomarmos uma pequena planta e torcermos ou dobrarmos seu caule, mantendo a pressão até que atinja a maturidade, ela estará deformada e danificada para sempre. Assim é com os jovens, pois é principalmente no lar, na família, que o coração é aberto, os hábitos formados, o intelecto despertado, e o caráter moldado, para o melhor ou para o pior.

A vida social de uma nação reflete aquela da família, pois é ali que os indivíduos que formarão a sociedade são cuidados e moldados em detalhe, um a um.

A família pode ser olhada como a mais influente escola de civilização, pois assim como os futuros membros da sociedade forem bem ou mal orientados na juventude, assim a comunidade que eles constituírem será mais ou menos civilizada.

Milton escreveu: “A infância revela o homem assim como a manhã revela o dia”.

De outro lado, é a ESCOLA que assume importância comparável à influência da família no desenvolvimento do jovem.

Não há remédio que possa melhor curar os diversos males que afetam nossa vida econômica e social como a EDUCAÇÃO. Muitas das disputas, sofrimentos, violência que nos assolam são baseados na ignorância, estreiteza de visão e preconceitos que poderiam ser dissipados pela luz do conhecimento.

O verdadeiro objetivo da educação, ao menos para livres pensadores como nós, deve ser habilitar cada estudante a pensar, planejar e agir por si mesmo.

Guiado pela experiência de outros, deve exercitar primariamente a iniciativa e a liberdade de decisão, representativas da genuína democracia.

Sabemos que a pedra fundamental de um governo é a inteligência de seu povo. Com adequada formação, o jovem saberá escolher com consciência entre o falso e o verdadeiro, o bem e o mal, e estará habilitado a desenvolver a autoconfiança e a resistência que enfrentam os ventos das adversidades e a escuridão das decepções.

Que nossos jovens se pautem pelo ensinamento do Sidarta Gautama, o Buda:

“Não acrediteis em coisa alguma pelo fato de vos mostrarem o testemunho escrito de algum sábio antigo; Não acrediteis em coisa alguma com base na autoridade de mestres e sacerdotes; Aquilo porém que se enquadrar na vossa razão, e depois de minucioso estudo for confirmado pela vossa experiência conduzindo ao vosso próprio bem e ao de todas as outras coisas vivas; A isso aceitai como verdade; E daí pautai vossa conduta!”

Ensinemos, também, lealdade e patriotismo em nossas escolas, em nossas lojas, em nossos púlpitos. Preservemos e protejamos aqueles sítios históricos que se tornaram caros aos corações do povo brasileiro, pois é por esse meio que seremos capazes de lembrar o passado e imprimir na mente de nossas crianças a riqueza de sua herança.

E nosso dever maçônico elevar o padrão de nossa cidadania ao mais alto nível possível. Quais são algumas das características de um bom cidadão? Em resumo, ele não deve temer o trabalho árduo; ele deve ser capaz de lutar suas próprias batalhas.

Quer ele trabalhe por dinheiro, por amor ou pela fama ele deve empenhar toda a sua vontade. Em qualquer campo em que trabalhe, ele deve fazer o melhor. E, acima de tudo, ele deve ser honesto, um ser humano de caráter.

Mas CARÁTER não significa intelecto ou conhecimento, pois alguns dos mais influentes personagens em muitas comunidades são com freqüência homens a quem faltam realizações literárias, mas possuidores de uma enorme e estabilizadora força moral.

Nos embates da vida ou dos negócios, não é apenas o intelecto que conta, mas o autocontrole, paciência, disciplina e bom julgamento. Estes são todos atributos morais, e têm peso maior que a mais cintilante esperteza.

“O caráter é a marca da dignidade humana O valor do homem está na dimensão do seu caráter. Caráter é a capacidade permanente de agir e a manifestação intrínseca de ser. Nunca meça nem julgue alguém pelo que ele tem e, sim, pelo que ele e TER é coisa acidentaL O essencial é SER. A diferença entre TER e SER é que um é só quantidade, enquanto o outro é essência de vida, é qualidade de viver”.

O homem de caráter é um bravo, é uma inspiração para o fraco, e a história está cheia de exemplos de o destino de uma batalha ser mudado pelo ato heróico de um único indivíduo que se recusou a aceitar a derrota. O mesmo é verdadeiro na vida comum, pois o que é bom e grandioso atrai o bem e o sublime.

Como escreveu nosso Irmão MARTIN LUTHER KING:

“É melhor tentar e falhar, que preocupar-se e ver a vida passar. É melhor tentar, ainda que em vão, que sentar-se fazendo nada até o final. Eu prefiro caminhar na chuva, que me esconder em cãs em dias tristes. Prefiro ser feliz, embora louco, que viver em conformidade!”

Ensinemos a juventude de nossa terra a honrar a integridade, pois um bom caráter é a mais nobre riqueza de um homem. Ensinemos a nutrir pensamentos puros e a viver corretamente. Ensinemos, também, que o contato com o bem nunca falha em atrair o bem.

Acreditamos, como disse um poeta, que “nosso passado é um poema, nosso presente um problema, nosso futuro uma promessa”.

Sabemos que, nas mais ferozes batalhas, somente os bravos chegaram; os covardes nunca partiram, e os fracos ficaram pelo caminho.

Concordamos com as palavras de nosso Irmão Monteiro Lobato, o ardente e puro nacionalista, defensor da pesquisa e exploração do petróleo em terras brasileiras, que escreveu em 1923:

“Tudo é loucura ou sonho no começo. Nada do que o homem fez no mundo teve início de outra maneira. Mas já tantos sonhos se realizaram, que não temos direito de duvidar de nenhum”.

Acreditando em sonhos, vamos implementar, nos próximos meses, no Grande Oriente do Distrito Federal, alguns programas, alguns projetos, algumas ações voltadas para o binômio: FAMÍLIA – EDUCAÇÃO, e desde já estendemos um convite a todos os presentes e em particular às autoridades do mundo civil, federal e distrital, para juntarem-se a nós nessa caminhada.

A ponta de lança de nossos esforços será o INSTITUTO JOSE HIPÓLYTO DA COSTA, nome escolhido em homenagem ao Irmão fundador do Correio Braziliense. Uma associação civil sem fins lucrativos, vinculada ao Grande Oriente do Distrito Federal, que atuará na área cultural, educacional e social, em estreita cooperação com a sociedade civil e o poder público federal e distrital.

ESTE ANO, AINDA, daremos partida a três grandes projetos:

Gostaria de encerrar lembrando a todos algumas palavras monumentais de nosso Irmão NELSON MANDELA, que brilham como um farol na tormenta, a nos mostrar a rota segura:

Nosso medo, mais profundo não é o de sermos inadequados.

Nosso medo mais profundo é de sermos poderosos além da medida.

E nossa luz, não nossa escuridão, que mais assusta.

Nascemos para manifestar a glória do Espírito que está dentro de nós.

E à medida que deixamos nossa luz brilhar, dantes condição aos outros de fazerem o mesmo. A medida que libertamos nosso medo, nossa simples presença libera os outros.

A todos os nossos convidados, meu mais sincero agradecimento pelas presenças; a meus Irmãos, uma promessa final: a de guiar-me pelas palavras de Sêneca, quase 700 anos

“TOLO É AQUELE QUE TOMA, PARÁ SI, O RESPEITO DADO AO CARGO QUE ELE OCUPA “.

Muito Obrigado.

HELIO Pereira LEITE

Grão-Mestre

Grande Oriente do Distrito Federal

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