Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça

HJC

O PATRONO

E a esta Loja Maçônica, aqueles doze irmãos, cujo número lembra, também, os doze arquitetos que planificaram o Templo de Salomão, deliberaram dar à Loja, entre os apresentados, o nome de Hipólito da Costa, numa homenagem ao grande maçom e paladino da mudança da Capital do Brasil para o interior do Território nacional.

Mais que justa, é esta homenagem a Hipólito José da Costa, pelo que ele representou para a implantação da Maçonaria em Portugal e no Brasil, bem como pelo seus relevantes serviços maçônicos  na Inglaterra, onde, inclusive, representou o Grande Oriente do Brasil.  E, também merecida pelos seus patrióticos e inexcedíveis esforços em prol da Independência do Brasil, ideal de todos os maçons brasileiros, e pela sua memorável campanha em favor da mudança da Capital do Brasil para o interior do território nacional, através do seu jornal, o “Correio Braziliense”, onde, ao longo dos anos de 1808 a 1822, pontificou, mensalmente, e se revelou “o verdadeiro criador do jornalismo brasileiro”.

VIDA E OBRA DE HIPÓLITO

Hipólito da Costa nasceu em 1774, na Colônia do Sacramento, região onde hoje se situa o Rio Grande do Sul, no dia 25 de abril.  Filho de um militar, o alferes Felix José da Costa Furtado de Mendonça.  Hipólito era o primogênito e tinha dois irmãos: Felício Joaquim, que foi padre e brilhante, e José Saturnino, que chegou a ser Senador do Império.  Seu nome completo Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça. 

Passou a infância entre criadores e lavradores, nos campos do sul.  Teve um tio, Padre Mesquita, que lhe ministrou os primeiros ensinamentos, inclusive noções de latim. 

Indo estudar em Portugal, inscreveu-se em três cursos superiores na Universidade de Coimbra, onde se formou em Filosofia, aos 22 anos; em Direito, aos 23 anos, e em Letras, aos 24 anos.

O brilhantismo de suas formaturas, o distingue para a função de Encarregado dos Negócios do Governo Português nos Estados Unidos, onde permaneceu dois anos e onde, aos 25 anos, na Filadélfia, foi iniciado maçom, na Loja Washington Lodge 59.

HIPÓLITO E A MAÇONARIA

Por estes tempos, os ideais humanísticos predominam entre os intelectuais, proclamando o princípio das liberdades e a preeminência como fonte de soberania.  Na filosofia maçônica, viu Hipólito uma ação realista e terrena.  Por isto, assim a definiu: “Amar-se mutuamente, repartir abundância com os indigentes, propor muitas vezes planos de utilidade pública e particular e, felizmente, executá-los”.

Nos Estados Unidos, e, depois, no México, realizou importantes estudos e pesquisas para o Governo Português, relativamente e assuntos agrícola, hidráulicos e outros.

Nessas viagens, Hipólito manteve importantes contatos científicos e políticos com intelectuais e políticos dos países visitados.

Regressando a Lisboa, em 1801, aos 27 anos, é nomeado Deputado Literário da Junta de Impressão Régia.

Numa viagem a Londres, no mesmo ano de 1801, para tratar de negócios particulares, como dizia, mas, na verdade, foi como representante de quatro Lojas Maçônicas portuguesas, Hipólito da Costa tratou de colocar Loja da Inglaterra, tendo freqüentado, em Londres, várias lojas maçônicas.

Como se sabe, a Maçonaria em Portugal, naquela época, era proibida e abjurada pelas influências eclesiásticas junto ao Governo.  Não era crime perante a lei civil; todavia, era considerada uma violação ao preceito (ou preconceito) eclesiástico, o exercício da atividade maçônica, o que, “numa sociedade como a portuguesa, de D. Maria I, era pior, e merecia as torturas e o fogo da Inquisição”.

A PRISÃO E A LIBERDADE DE HIPÓLITO

Tendo o Chefe  da Policia Portuguesa tomado conhecimento das atividades franco-maçônicas de Hipólito em Londres, manda prendê-lo, logo que regressa.  Encarcerado pela Inquisição, sob a acusação de ser franco-maçom, penou durante dois anos e meio nas masmorras,  e foi vítima de torturas, sem crime  e sem processo regular.  Hipólito, em “Narrativa”, tempos depois, diz que “nada irrita tanto o inquisidor, como um  homem que raciocina”.  Os maçons portugueses, embora na clandestinidade e ameaçados, estavam atentos, procurando a melhor ocasião para ajudar Hipólito a libertar-se das garras do Santo Ofício.

Só em 1804, depois de dois anos e meio de sofrimentos, foi Hipólito da Costa retirado da prisão numa fuga novelesca e perigosa.  Através de terras espanholas e via Gibraltar, Hipólito chega a Londres, onde é protegido pelo Duque de Sussex, filho do Rei George III, da Inglaterra.  Sussex era maçom.

Na Inglaterra, o Duque de Sussex deu toda proteção a Hipólito, conseguindo, inclusive, sua naturalização como cidadão britânico, a fim de evitar um possível pedido de extradição pelo Governo português, sob a alegação de criminoso político fugitivo.

Nesta época, viviam em Londres, a exemplo de Hipólito, muitos refugiados portugueses que pensavam igualmente como ele. Em Londres, de 1806 a 1808, dava lições e fazia traduções para ganhar o seu sustento. Neste período, é iniciado maçom na Loja “Antiquity nº 2”, em Londres.

A INFLUÊNCIA DA MAÇONARIA

Uma das mais fortes influências que teve Hipólito para uma admiração maior pela Maçonaria foi o pensamento e a ação do Conde de Rumford, de quem traduziu, no início do Século Dezenove, a obra “Ensaios políticos, econômicos e filosóficos”.  Rumford, além de filósofo, era um filantropo, com muitas experiências de promoção social na Baviera.

Aquele exemplo maçônico, gerou em Hipólito uma reflexão e uma decisão, conforme escreve em seu Diário: “Hoje tive notícia de uma Sociedade Filantrópica, em Londres, que por meio de subscrição em particulares fez um estabelecimento de rapazes pobres para os aplicar às artes e aos ofícios”.  E acrescenta Hipólito: “Este estabelecimento devo eu estabelecer no Rio Grande inda à custa de grande parte do meu patrimônio”.

Enquanto isto, a intolerância religiosa e política do final do Século Dezoito, fizeram da Maçonaria um centro de Idéias liberais, notadamente por ser mestra da tolerância.  A Sociedade era constituída de homens de bons costumes, e, ao contrário das demais instituições da época, não havia, nela distinção de classe ou de condição.  Era um terreno neutro, onde todas as crenças se poderiam  encontrar. Este ambiente (que se mantém até hoje) impressiona emotiva cada vez mais a Hipólito José da Costa.

O clima de humanismo, de liberdade de consciência, de igualdade de direitos e de fraternidade que Hipólito encontrou no pensamento e ação maçônica, com soluções  técnicas para certos problemas sociais, fazem dele um renovador e, dentro de sua própria definição, um reformador, e nunca um revolucionário no sentido catastrófico do termo.

Assim, sua vida pública se tornaria uma luta constante pela reforma dos costumes políticos e das instituições de sua terra natal, na feliz definição de Mecenas Dourado. Decide-se, então, Hipólito da Costa, a “orientar a opinião pública, reformar os costumes por uma ação ap progresso e ao bem-estar” de sua terra natal.

E bem sua esta definição de progresso:  “O progresso se obtém por meios pacíficos e ordinários do conhecimento científico e da persuasão”. Nestes seus pensamentos e em sua atividade pacifista e anti-revolucionária, é que vemos a influência dos ensinamentos maçônicos, porque, segundo norma da instituição, “a Maçonaria é um  órgão iniciático sem deixar de ser dinâmico para a vida porque é uma ordem progressista, e, como tal, o maçom deve usufruir de suas prerrogativas de cidadão, mas sempre de forma pacífica”.

MAÇOM E COMUNICADOR

Administrador e fervoroso adepto da Maçonaria, Hipólito José da Costa desenvolve a doutrina e a filosofia maçônica e dela faz o programa de sua atividade política e jornalística.

Hipólito não era um revolucionário, mas, sim, um progressista e um reformador.  Por isso, viu na criação de um veículo de comunicação da imprensa livre um órgão eficaz para a educação e o desenvolvimento do seu povo. Em 1808, Hipólito da Costa funda, na Capital inglesa, o jornal “Correio Braziliense” com o objetivo de manter os brasileiros informados dos assuntos mundiais e a divulgação de idéias relevantes sobre política, literatura, economia, agricultura e outros temas da atualidade, entre os quais, a melhor política para o Brasil.

Com o “Correio Braziliense”, iniciou Hipólito da Costa um magistério útil à sua terra e do que estava convencido, pois são suas estas palavras:

- Todo indivíduo particular que se esforça, pelos meios que tem ao seu alcance para ilustrar e instruir seus compatriotas, nas verdadeiras idéias de Governo e das formas que mais podem contribuir para a felicidade pública, faz um bem real à sua nação, porque são essas medidas outros passos para os melhoramentos que se desejam introduzir”.

E o “Correio Braziliense” foi este meio encontrado por Hipólito. Nascia, assim, o “Correio Braziliense” de uma convicção e de uma vontade cívica, qual seja, a de preparar para o Brasil instituições liberais e melhores costumes políticos. Nesta época de início de circulação do “Correio Braziliense”, as forças político-militares francesas ocuparam Lisboa, obrigando a Família Real a refugiar-se no Brasil.  Estando Portugal entregue ao jugo estrangeiro, Hipólito percebeu a perspectiva favorável que se abria para sua terra natal, o deslocamento da Capital do Reino Português para o Rio de Janeiro.

O jornal “Correio Braziliense” era editado em Londres – é bom frisar – e em língua portuguesa, e tinha circulação no Brasil e em Portugal, embora clandestinamente, durante o largo período de 1808 a 1822, quando encerrou suas atividades após a Independência do Brasil, resultado de um  ideal e de uma luta dos maçons, que tiveram em Tiradentes o autêntico precursor.  As idéias liberais de Hipólito e os seus ensinamentos serviram como instrumentos eficazes na preparação psicológica para a emancipação política do Brasil.

ATUAÇÃO MAÇÔNICA DE HIPÓLITO

Durante este período de atividade do “Correio Braziliense”, Hipólito da Costa reunindo em Londres, em 1812, alguns maçons fugitivos portugueses da invasão francesa, funda com eles, a Loja Maçônica Luzitânia, época em que já ocupa o cargo de Primeiro Experto na Grande Loja da Inglaterra e onde foi um dos articuladores  do espírito de unificação que gerou a Grande Unida da Inglaterra,  Em 1817, aos 43 anos, casa-se com uma inglesa.  Mary Ann com quem teve o filho Augusto Frederico, nome dado em homenagem ao prenome do Duque de Sussex, protetor de Hipólito nos tempos difíceis da fuga de Portugal.  Logo, Hipólito Torna-se Grão-Mestre Provincial do Condado de Ruthland, em 1819, sendo, no mesmo ano, elevado ao mais alto grau de perfeição da Maçonaria, o Grau 33.  Foi um dos fundadores do Supremo Conselho Maçônico da Inglaterra e, finalmente, em 1822, foi designado, pelos maçons do Brasil, como representante do Grande Oriente do Brasil na Inglaterra.

O CORREIO BRAZILIENSE E BRASÍLIA

Dentre as teses defendidas por Hipólito da Costa no “Correio Braziliense”, destaca-se a concepção da transferência da Capital do Brasil para interior do País, onde seriam lançados “os fundamentos do mais extenso ligado e bem defendido e poderoso império que é possível exista na superfície da Terra”.  Apontou o local da nova Capital no interior do Brasil e definiu este local, no Planalto Central Goiano, com a “descrição do paraíso terreal”.

Quando esta tese de Hipólito se efetivou no Brasil, em 1960, ao ser construída e inaugurada Brasília, pelo presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, o jornalista Assis Chateaubriand, então embaixador do Brasil na Inglaterra e fundador da grande cadeia de jornais e rádios brasileiros “Diários Associados”, decidiu fazer a impressão e edição do jornal de Hipólito da Costa, o “Correio Braziliense, numa segunda fase.  E, no dia 21 de abril de 1960, na mesma data da inauguração de Brasília, o jornal “Correio Braziliense”, desativado desde 1822, volta a circular numa segunda fase e permanece atuante até os nossos dias como um veículo líder da imprensa brasiliense e brasileira, na Capital da República, e realizando um trabalho notável.

HOMENAGENS À VIDA E À OBRA DE HIPÓLITO

Hipólito José da Costa faleceu em 1823, um ano depois de nossa Independência, no dia 11 de setembro, em Londres.  Meses antes, fora designado por D. Pedro I, Cônsul Geral do Brasil na Inglaterra, em reconhecimento pelos seus trabalhos em prol da Independência do Brasil e pelo seu esforço junto ao Governo Inglês a fim de que reconhecesse a Soberania do Brasil.  Mas Hipólito não chegou assumir o posto, tendo, porém, recebido a comenda da Ordem Imperial Cruzeiro do Sul.

 Ao transcurso dos 150 anos da morte de Hipólito José da Costa, considerado o Patrono da Imprensa Brasileira, a Embaixada do Brasil em Londres, nas pessoas dos embaixadores Gibson Barbosa e Correia Costa, prestou uma homenagem a Hipólito José da Costa, na Paróquia de Herley, onde repousam os seus mortais, e para cuja homenagem foi convidado e esteve presente o atual diretor do “Correio Braziliense”, jornalista Edílson Cid Varela, residente em Brasília, autoridades ingleses e parentes de Hipólito residentes ainda em Londres.

 Na Igreja sede da Paróquia de Herley há, junto ao túmulo de Hipólito da Costa, o seguinte pensamento do seu amigo e protetor, o Duque de Sussex, filho do Rei Jorge III, que diz o seguinte:

“- Um homem não menos ilustre pelo vigor de sua inteligência  e habilidade, do que pela inteireza de sua educação e caráter.  Descendia de uma nobre família do Brasil e durante os últimos 18 anos de sua vida, viveu neste País, de onde, através de inúmeros e valiosos escritos, difundia entre os habitantes daquele extenso império, o gosto pelo conhecimento útil, o afeto pelas artes que embelezam a vida, e o amor pela liberdade constitucional fundada na obediência às leis sadias e assentadas nos princípios da benevolência e boa vontade entre os homens”. A este gesto de carinho dos ingleses por Hipólito José da Costa, tem-se juntado o afeto e o entusiasmo do seu povo, o brasileiro, em reconhecimento pela sua vida e pela sua obra.

 Varnhagen, o notável historiador patrício, fez esta declaração de justiça a Hipólito da Costa:

 - Não cremos que nenhum estadista tenha concorrido mais para preparar a formação do Brasil para um império constitucional do que o ilustre redator do “Correio Braziliense”.  E, Assis Chateaubriand quis manter viva a chama de Hipólito da Costa, fazendo renascer o seu “Correio Braziliense”, em 1960, e que, hoje, é mantido pelos “Diários Associados” em Brasília, onde é seu diretor, o jornalista Edílson Cid Varela.

 E esta Augusta e Respeitável Loja Maçônica Hipólito da Costa quis perpetuar a lembrança de Hipólito na História, absorvendo para si o seu nome e em sua homenagem, fazendo com que os ensinamentos e os ideais cívicos e maçônicos de Hipólito da Costa sirvam aos homens dos nossos dias e cheguem até às gerações vindouras, em prol da sobrevivência e do bem estar da família, pelo engrandecimento do Brasil e da Ordem Maçônica, e para glória  do Grande Arquiteto do Universo, que é Deus.

J. Adirson Vasconcelos e

Transcrito por  Manoel Francisco da Silva Júnior

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