1907 – O TESTAMENTO DE QUINTINO BOCAIÚVA

"Do Pó dos Arquivos" — José Castellani

Podendo suceder que eu faleça repentinamente, ou em condições de não poder exprimir as minhas últimas vontades, deixo escritas estas instruções, cuja execução recomendo às pessoas de minha família e cujo cumprimento rogo às pessoas estranhas, entre as quais, por acaso, eu venha a falecer.

Desejo ser sepultado no cemitério mais próximo do lugar onde eu faleça, sem honras civis ou religiosas de nenhuma espécie.

Se eu falecer na cidade do Rio de Janeiro e na minha residência habitual, desejo ser enterrado no cemitério de Jacarepaguá. Se eu falecer em Pindamonhangaba, deve o meu corpo ser sepultado no cemitério dessa cidade.

A condução do meu corpo, neste caso, deve ser feita por camaradas da fazenda de Santa Helena (seis ou oito), a cada um dos quais se abonará a gratificação de dez mil réis.

Desejo ser sepultado em cova rasa, sobre a qual não se fará lápide ou qualquer outro símbolo material, que recorde a minha existência.

Em nenhuma hipótese, faleça eu onde falecer, o meu corpo será embalsamado ou conservado por qualquer outro processo.

Minha família não fará anúncio ou convites para o meu enterro, nem tampouco mandará dizer missas por minha alma, conforme o estilo comum.

Na minha qualidade de maçom e livre pensador, não tenho direito aos sufrágios da igreja católica romana.

Penso ter sido intimamente cristão e suponho que o cristianismo, na sua pureza de origem, é ainda um ideal afastado da humanidade nos tempos que correm.

O meu enterro deve ser decente, mas singelo — não quero armação de eça na minha casa, nem encomendação de nenhum padre, ainda que algum se ofereça para isso.

Findo o prazo legal, os meus despojos devem ir para o ossuário comum.

Mais ou menos, é este o resumo das minhas disposições testamentárias.

Rio de Janeiro, julho de 1907

Q. Bocaiúva

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( em ortografia moderna )

Quintino Bocaiúva, nascido a 4 de dezembro de 1836, em Itaguaí (RJ), foi jornalista, político e um dos maiores nomes do movimento republicano brasileiro. Seu nome de batismo era Quintino de Sousa Ferreira; todavia, na época em que estudava Direito em S. Paulo, ele adotou um nome nativista — prática em voga, na época — passando a Quintino de Sousa Bocaiúva e, depois, simplesmente a Quintino Bocaiúva (bocaiúva é uma espécie de coqueiro brasileiro, também chamado de macaúba e coco-de-catarro).

Matriculado na Faculdade de Direito de São Paulo, no curso de Humanidades, em 1851, iniciou sua carreira jornalística como tipógrafo, redator e revisor do "O Ipiranga", jornal do Partido Liberal. Em 1852, a 29 de junho, era iniciado na Loja Piratininga, da capital de São Paulo — fundada a 28 de agosto de 1850 — bem antes de ter completado a idade regulamentar, por ser filho de maçom (na ata consta que ele tinha 19 anos de idade, mas tinha menos)[1].

Radicado, posteriormente, no Rio de Janeiro, teve brilhante trajetória na imprensa, primeiro no "Diário do Rio" e, depois, no "Correio Mercantil". Em abril de 1864, ele aparece como um dos instaladores da Loja Segredo, pertencente ao Grande Oriente do Vale dos Beneditinos, liderado por Joaquim Saldanha Marinho. Em junho do mesmo ano, era admitido como membro do quadro da Loja Comércio, do mesmo círculo. Essa dissidência criada por Saldanha Marinho iria chegar ao fim em janeiro de 1883, quando suas Lojas foram integradas, ou reintegradas ao Grande Oriente do Brasil.

Em 1870, Quintino foi o redator do famoso manifesto republicano, publicado no primeiro número do jornal "A República", que viria a ser empastelado em 1873. Em 1874, fundou o "O Globo" e, em 1884, o "O País", tendo, este último, exercido grande influência na campanha republicana. Por sua atuação na imprensa, ele foi cognominado, por seus contemporâneos, "o Príncipe dos Jornalistas Brasileiros"[2].

Tão grande era o seu prestígio, como líder republicano, em todos os meios, inclusive no militar, que, na madrugada de 15 de novembro de 1889, Quintino cavalgou ao lado de Deodoro da Fonseca, como único civil a participar, ativamente, do capítulo final do movimento republicano, com a queda do Segundo Império. Implantada a República, ele ocupou o Ministério do Exterior, durante o Governo Provisório.

No Grande Oriente do Brasil, Quintino foi eleito Grão-Mestre Adjunto, em 1897. Eleito presidente do Estado do Rio, tomou posse a 31 de dezembro de 1900 e estava no cargo quando foi eleito Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, em fevereiro de 1901, tendo sido empossado em junho e tendo, como Adjunto, Henrique Valadares. Foi durante o seu mandato que começaram a ser implantados os Grandes Orientes Estaduais federados, de acordo com a Constituição sancionada pelo Decreto Nº 179, de 31 de dezembro de 1900, a qual facultava essa implantação. O primeiro foi o de São Paulo, autorizado a funcionar, através do Decreto Nº 195, de 1º de outubro de 1901, e regularmente instalado a 24 de junho de 1902. A 21 de junho de 1904, Quintino entregava o malhete de supremo mandatário da Maçonaria brasileira ao senador e general Lauro Sodré.

Em 1909, foi eleito senador da República, vindo a falecer a 11 de julho de 1912, no Rio de Janeiro, no atual subúrbio que tem o seu nome. Morreu em um ambiente de pobreza, no qual sempre viveu, pois jamais se locupletou com os cargos que exerceu.

O seu testamento é de uma absoluta coerência com o seu modo de ser, durante toda a sua vida: homem simples rejeitou qualquer pompa em seus funerais; espiritualista, rejeitou qualquer símbolo material, que, sobre sua cova, recordasse sua existência; filho de uma época de intolerância religiosa entendia que a pureza da doutrina cristã ainda estava longe de ser alcançada pela humanidade, exatamente em decorrência do radicalismo do clero da época; com a dignidade e a coragem de se declarar, sem subterfúgios, maçom e livre pensador, rejeitou os sufrágios da Igreja, numa época em que muitos ocultavam sua qualidade maçônica e procuravam as benesses do clero, como passaporte seguro para o reino dos céus[3].

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[1] Da ata consta : "O Ir.: Ven.:  pede ao Ir.: Mest.: de Cer.:  que informe se ha algum prof.: na Sal.: dos Pass.: perdidos que se queira iniciar em nossos aug.: e myst.: Trab.: — o Ir.: Mest.: de Cer.:  volta affirmando haverem dous : : um de nome José Antonio Getulio D´Almeida Machado, Brasileiro, solteiro, Catholico Apostolico Romano, mineiro, estudante e de 26 annos de idade, e o outro chamado Quintino Ferreira de Souza, Brasileiro, Catholico Apostolico Romano, solteiro, estudante, fluminense, e de 19 annos de idade. Estes dous prof.: levados ao portico do Temp.: , passarão depois por todas as provas symb.: e embl.: de nossa Resp.:  Ordem.  A pedido do 1º Vig.: lhes foi dada a L.: e tomaram assento na baze da Col.: do meio-dia. O Ir.: Ven.: proclamouu em face da Loj.: os dous neophytos app.: maç: do rit.: esc.: ant.: e acc.:, e membros effect.: do quadro, e igualmente convidou á todos os Ir.: que unidos á elle o ajudassem  a applaudir tão feliz quão acertada acquisição".  

[2] Apesar da queda da monarquia, os brasileiros continuaram com fumaças de nobreza — "príncipe dos jornalistas", "príncipe dos poetas" — hábito existente até hoje, com os "reis" e "rainhas" de esportes, da música, da agricultura, da pecuária, etc. , num anacronismo piegas de um povo e de uma mídia à procura de mitos, para exercer a sua idolatria.

[3] Vale, a bem da verdade, esclarecer que, no Brasil, durante todo o século XIX, centenas de membros do clero católico foram maçons. As relações entre Igreja e Maçonaria, apesar das condenações papais — por motivos políticos — que vinham desde o século XVIII, só começaram a azedar, realmente, a partir do pontificado de Pio IX, principalmente com a bula "Multiplices Inter Machinationes", pronunciada durante o Consistório de 25 de setembro de 1865, e com a reação do papa à unificação da Itália, de 1870, a qual reduziu o seu poder político e material; no caso específico do Brasil, o caldo entornou com a Questão Religiosa de 1872, querela de caráter político entre a Igreja e o Estado, na qual a Maçonaria, inadvertidamente, foi envolvida.

 

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