À GL\DO GR\ARQ\DO UNIV\

G\O\B\e G\O\D\F\

Aug\e Resp\Loj\Simb\Hipólito da Costa, 1960

O RITO ADONHIRAMITA

A Maçonaria é Universal, mas não é única. Ela é bela e tem os princípios mais coerentes com a realidade social, econômica, política e religiosa, no final do século XX e alvorecer do século XXI. Também conhecida como Francomaçonaria (nome que tem origem nos mestres de obras das catedrais medievais, conhecidos na Inglaterra como Free-stone mason), é, antes de tudo, uma associação voluntária de homens livres, cuja origem se perde na Idade Média, se se considerar as suas origens Operativas ou de Ofício.

Fundada em 24 de junho de 1717, com o advento da Grande Loja de Londres, agrupa mais de onze milhões de membros em todo o mundo. É o mais belo sistema de conduta moral, que pretende fazer com que o Iniciado, única forma de pertencer aos seus quadros, seja capaz de vencer suas paixões, dominar seus vícios, as suas ambições, o ódio, os desejos de vingança, e tudo que oprime a alma do homem, tornando-se exemplo de fraternidade, de igualdade, de liberdade absoluta de pensamento e de tolerância.

Em função disso, os objetivos perseguidos pela Maçonaria são: ajudar os homens a reforçarem o seu caráter, melhorar sua bagagem moral e espiritual e aumentar seus horizontes culturais. É uma sociedade fraternal, que admite: todo homem livre e de bons  costumes, sem distinção de raça religião, ideário político ou posição  social. Suas únicas exigências são que o candidato possua um espírito filantrópico e o firme propósito de tratar sempre de ir a busca da  perfeição.

Simbolicamente, o Maçom vê-se a si mesmo como uma pedra bruta que tem de ser trabalhada, com instrumentos alegóricos adequados, para convertê-la em um cubo perfeito, capaz de se encaixar na estrutura do Templo do Gr\Arch\do Un\. Ela se fundamenta na crença em um Ser Superior ou Deus, denominado de Grande Arquiteto do Universo, que é o princípio e causa de  todas as coisas. Parece rígida em seus princípios, mas é absolutamente tolerante com todas as pessoas, ensinado aos iniciados que é mister respeitar a opinião de todos, ainda que difiram de suas próprias, desafiando a todos à mais sincera Tolerância. A Ordem não visa, em hipótese alguma, lucro ou benefício, pessoal ou coletivo.

Maçonaria e a Sociedade: A Maçonaria exige de seus membros, respeito às leis do país em que cada Maçom vive e trabalha. Os princípios Maçônicos não podem entrar em conflito com os deveres que, como cidadãos, têm os Maçons. Na realidade estes princípios tendem a reforçar o cumprimento de suas responsabilidades públicas e privadas. A Ordem induz seus membros a uma profunda e sincera reforma de si mesmos, ao contrário de ideologias que pretendem transformar a sociedade, com uma sincera esperança de que, o progresso individual contribuirá, necessariamente, para a posterior melhora e progresso da Humanidade. Falaremos, agora, sobre uma das maçonarias Universais.

O Nascimento

O Rito Adonhiramita, hoje só praticado no Brasil. É também chamado de Maçonaria Adonhiramita, nasceu de uma controvérsia, na França do século XVIII, em torno de Hiram Abi ("Hiram, meu pai"), chamado de Adon-Hiram ("senhor Hiram"), e Adonhiram, que, segundo os textos bíblicos, era um preposto às corvéias, por ocasião da construção do templo de Jerusalém[1].

Em 1744, Louis Travenol, sob o pseudônimo de Leonard Gabanon, em sua obra "Cathécisme des Francs Maçons ou le Secret des Francs Maçons", confundiu Adonhiram com Hiram Abi, o que fez com que os ritualistas se dividissem, pois, para uns, Adonhiram e Hiram eram a mesma pessoa, enquanto outros sustentavam uma teoria dualista, divergindo quanto à ação de cada um dos personagens: um grupo sustentava que Adonhiram não havia sido mais do que um subalterno, ao passo que o outro via, nele, o verdadeiro protagonista do terceiro grau.

Nasceria, assim, uma Maçonaria dita Adonhiramita, que seria, segundo seus teóricos, oposta à Maçonaria "Hiramita". E ela se tornaria conhecida através da publicação do "Recueil Précieux de la Maçonnerie Adonhiramite", publicado em 1782, por Louis Guillemain de Saint-Victor, e que Ragon, sem nenhum fundamento, atribuiu, erradamente, ao barão de Tschoudy. Essa primeira compilação envolvia os quatro primeiros graus e foi completada, em 1785, pelo mesmo Louis Guillemain, com uma compilação complementar abordando oito Altos Graus, completando os doze do rito.

Ainda hoje tem-se como verdade que o Rito foi compilado e publicado pelo então Barão de Tschoudy, que tem levado a fama durantes todos estes anos. Na página eletrônica da Loja Hipólito da Costa, 1960 (Brasília-DF) e da Loja Fé Alegria e Triunfo, 2097 (Curitiba-Pr) os créditos são para o Barão de Tschoudy.

Entretanto, após 1785, Saint-Victor publicou a tradução de um artigo alemão, sobre um grau dito "Noachita" (alusivo a Noah, ou Noé), ou "Cavaleiro Prussiano", tratando-o, ironicamente, em trabalho estampado no "Journal de Trévoux". O mesmo Ragon, novamente sem nenhum fundamento, "viu", aí, um décimo-terceiro grau adonhiramita, embora Saint-Victor só tenha apresentado o artigo como uma curiosidade[2].

No Brasil

Ao lado do Rito Moderno, o Rito Adonhiramita foi um dos primeiros introduzidos no Brasil, precedendo, por pouco tempo, o primeiro, no início do século XIX. O Grande Oriente do Brasil – inicialmente Grande Oriente Brasílico – criado em 1822, todavia, adotou o Rito Moderno. E isso é comprovado, através de atas do Grande Oriente, em 1822, as quais se referem ao "sistema dos sete graus”[3].

Embora, no início do século XIX, o Rito tenha tido muita aceitação, ele acabaria, logo, sendo praticamente ignorado, pois, quando, depois do fechamento do Grande Oriente Brasílico – a 25 de outubro de 1822 – foi reerguida a Maçonaria brasileira, em 1830 e 1831, através de dois troncos, o Grande Oriente Brasileiro e o Grande Oriente do Brasil, respectivamente, nenhuma Loja adotou o rito. Ele só seria reintroduzido em 1837, quando foi fundada a Loja "Sabedoria e Beneficência", de Niterói, regularizada  a 16 de janeiro de 1838, na jurisdição do Grande Oriente do Brasil, vindo a abater colunas em 1850.

A segunda Loja – "Firmeza e União" – surgiria em 1839, ano em que a Constituição do Grande Oriente do Brasil instituía o Grande Colégio de Ritos, para abrigar os Altos Graus dos ritos então praticados: Moderno, Adonhiramita e Escocês Antigo e Aceito. Este último havia sido introduzido em 1829 e seu Supremo Conselho, fundado em 1832, sendo Obediência independente, começava a criar suas próprias Lojas. Em 1842, com a promulgação de uma nova Carta Magna do Grande Oriente do Brasil, foi reorganizado o Grande Colégio dos Ritos, com os três ritos então praticados, o que mostra como foi extemporânea a comemoração, em 1992, no Rio de Janeiro, do "sesquicentenário" da Oficina Chefe do Rito Moderno[4].

A incorporação, em 1854, do Supremo Conselho do Rito Escocês ao Grande Oriente do Brasil, teria de provocar uma modificação no Grande Colégio de Ritos, do qual já não faria parte o Escocês. Assim, de acordo com a Constituição de 1855, foi criado, apenas para atender aos Ritos Moderno e Adonhiramita, o Sublime Grande Capítulo dos Ritos Azuis[5].

Em 1863, ocorreria uma dissidência, no Grande Oriente do Brasil, liderada por Joaquim Saldanha Marinho, sendo criado o Grande Oriente do Vale dos Beneditinos – que, depois de uma fracassada tentativa de reunificação, passou a se denominar Grande Oriente "Unido" – em alusão ao seu local de funcionamento. Nesse Grande Oriente, o Rito Adonhiramita floresceu, chegando, o número de suas Lojas, a suplantar o do Grande Oriente do Brasil: neste, foram fundadas as Lojas "Aliança", em 1869, e "Redenção", em 1872, perfazendo três Lojas do rito, contra cinco, existentes, na mesma época, no Grande Oriente dos Beneditinos.

Com essas três Lojas, o Grande Oriente do Brasil criou pelo Decreto nº 21, de 2 de abril de 1873, o Grande Capítulo dos Cavaleiros Noachitas, ligado, como  Supremo Conselho Escocês, ao Grande Oriente que era uma Obediência mista (simbólico-filosófica), numa situação que iria perdurar até 1951. Nesse ano, a 23 de maio, pelo Decreto nº 1641, o Grão-Mestre do GOB, Joaquim Rodrigues Neves, promulgava a nova Constituição, a qual passava a reger apenas a Maçonaria Simbólica, fazendo com que o Grande Oriente voltasse a ser uma Obediência estritamente simbólica, separando-se das Oficinas Chefes de Rito. A Constituição esclarecia que o Grande Oriente "com elas mantém relações da mais estreita amizade e tratados de reconhecimento, mas não divide com elas o governo dos três primeiros graus, baseados na lenda de Hiram, que exerce na mais completa independência em toda a sua vasta jurisdição".

A partir daí, assim como o Supremo Conselho do Rito Escocês, o Grande Capítulo dos Cavaleiros Noachitas passava a ser uma Obediência independente, separada do GOB, passando, de acordo com os seus estatutos, elaborados em 1953, a se denominar Muito Poderoso e Sublime Grande Capítulo dos Cavaleiros Noaquitas para o Brasil.

A 15 de abril de 1968,  era assinado, entre o Grão-Mestre do Grande Oriente, Álvaro Palmeira, e o então Grande Inspetor do Sublime Grande Capítulo, Josué Mendes, um Tratado de Aliança e Amizade entre as duas Obediências. Com a morte, em 1969, de Josué Mendes, Aylton de Menezes assumiu o cargo de Grande Inspetor, tratando de alterar, totalmente, a estrutura administrativa do rito, que, há muito, não era mais praticado em qualquer outro país do mundo. Com isto, de acordo com sua Constituição, promulgada a 2  de junho de 1973, o Sublime Grande Capítulo passou a se denominar Excelso Conselho da Maçonaria Adonhiramita, enquanto o Grande Inspetor assumia o título de Magnífico Patriarca Regente. Conforme os termos da Constituição, os poderes e autoridades do Sublime Grande Capítulo eram transmitidos ao Excelso Conselho, embora o tratado de 1968, com o GOB, tivesse sido feito em nome do Grande Capítulo. Além da alteração administrativa, os graus adonhiramitas eram, então, aumentados de treze para trinta e três.

Em 1973, por uma cisão no Grande Oriente do Brasil, surgiram os Grandes Orientes estaduais independentes, ou autônomos. Alguns criaram Lojas adonhiramitas, mas não promoveram essa modificação estrutural, surgida no âmbito do Grande Oriente do Brasil. Foi o caso da pujante Maçonaria Adonhiramita  do Grande Oriente de Santa Catarina – depois transformada em Oficina Chefe do rito, em âmbito nacional, para todos os Grandes Orientes independentes – que já promoveu diversos encontros estaduais e nacionais, com pleno sucesso. Ali, a Oficina Chefe do Rito continua sendo o Sublime Grande Capítulo, é dirigida por  um Grande Inspetor e adota o Rito Adonhiramita original, sem o acréscimo de graus.

Rituais e Ritualismo

Não foram feitos muitos rituais Adonhiramitas dos graus simbólicos, no Brasil (menos ainda nos Altos Graus). Os primeiros utilizados, na primeira metade do século XIX, eram, simplesmente, traduções feita – e mal feita – da "Compilação Preciosa". Somente em 1873, diante da iminente criação do Grande Capítulo Noachita, é que o Grande Oriente do Brasil editaria o Regulamento dos Graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre (o Grande Oriente dos Beneditinos já possuía esses rituais). Esse regulador dos três graus simbólicos seria reeditado em 1916 e em 1938.

Atualmente pratica-se a versão mais sintética e consistente, visto os ajustes e cortes em repetições desnecessárias e que passaram a vigorar a partir de 2004. Nesta condição estão os Graus de Aprendiz e de Companheiro. Já nos Graus filosóficos, estes foram refeitos segundo um modelo de comunicação padronizado trazendo facilidade de leitura e seqüências práticas para as ocasiões em é exigido. O cuidado está na guarda de relação entre todos os Graus a partir da simbólica.

As práticas ritualísticas do Rito Adonhiramita são, seguramente, das mais belas, entre as dos diversos ritos praticados em nosso país. Se o Rito Schroeder é, sem dúvida nenhuma, o mais simples e objetivo, o Adonhiramita é o mais complexo e o de maior riqueza cênica, não só nas cerimônias magnas de iniciação, elevação e exaltação, mas até nas sessões mais simples, quando nenhuma das práticas próprias do rito é omitida. Este fato tem levado a um crescimento de sua pratica, tanto no GOB quanto em noutras potências que têm admitem mais de um Rito.

E essas práticas são, por exemplo, a cerimônia de incensação – que tem sido imitada, indevidamente, por outros ritos – o cerimonial do fogo (reavivamento da Chama Sagrada, tirada do Fogo Eterno) e as doze badaladas argentinas, também copiadas, erradamente, por outros ritos, em todas as sessões. E, no cerimonial de iniciação, a cena da "traição", de grande beleza cênica, profundo conteúdo dramático e alto teor educativo, pois, além de mostrar quão execrável é o traidor de seus próprios princípios, ainda ensina uma lição moral e uma verdade social: ninguém pode ser condenado, sem um julgamento imparcial. A cerimônia final da câmara ardente – também muito copiada, inclusive em algumas edições de rituais escoceses – é decorrência da cena inicial da "traição", que os demais ritos não possuem. Todas essas imitações apenas confirmam a beleza cênica do rito.

Bibliografia

Castellani, José, Fragmentos da Pedra Bruta, Editora A Trolha, 2001, Volume II.


[1] O personagem Adonhiram, ou Adoram, ou Hadoram, citado em Reis I, Samuel II e Crônicas II, era encarregado dos impostos e dos prepostos às corvéias. Preposto é o auxiliar encarregado de certos negócios e que age em nome e por conta de um patrão, um preponente. Corvéia era o trabalho ou o serviço gratuito --- praticamente um trabalho escravo --- que as pessoas tinham de prestar ao rei (também presente no feudalismo europeu). Adonhiram, portanto, era o contratante dessa atividade servil, como preposto de Salomão e, depois, de Roboão. Ele foi apedrejado, até à morte, pelos hebreus de dez tribos, os quais, a partir desse dia foram considerados infiéis à casa de David como consta em Reis I, 12 - 18 e 19 (a referência é ao cisma de 920 A.C., quando os hebreus dividiram-se em dois Estados : Israel e Judá). A apresentação da edição francesa do "Recueil", todavia, situa que Adonhiram é nome composto do hebraico "Adon" e "HIram", de acordo, inclusive com o próprio autor. A lenda do 4º grau confirma isso.

[2] Esses dados são unanimemente citados por respeitáveis pesquisadores franceses, como Paul Naudon, Alec Mellor e Bayard.

[3] Da ata da sessão do 22º dia  do 4º mês maçônico do Ano da Verdadeira Luz 5822 (12 de julho de 1822), do Grande Oriente, consta a discussão de proposta de elevação ao grau de Eleito Secreto (o quarto grau do Rito Moderno), dos Irmãos Zimmerman, Sertório, Ícaro, Castor e Vasco da Gama (nomes simbólicos, costume da época, hoje só mantido pelo Rito Adonhiramita). Mais adiante, na mesma ata, em resposta ao pedido de elevação ao mestrado, de outros obreiros, consta que ficaram na espera os Irmãos Curius, Procion, Celso, Lycurgo e Baudeloque, mandando recomendar, a Grande Loja  (órgão executivo do Grande Oriente), a esses obreiros, que se lembrassem de que, adotada a Maçonaria dos sete graus, o grau de Mestre tornava-se muito respeitável e que, se eles tinham verdadeiro amor pela Ordem, deveriam querer que fosse mais lenta essa concessão de graus, para torná-los mais valiosos (uma verdadeira lição para os afoitos, que querem subir a jato, sem conhecimentos suficientes).

[4] O Grande Capítulo do Rito Moderno, na realidade, só surgiria em novembro de 1874, depois da criação do Grande Capítulo Noachita e a conseqüente saída deste do Capítulo dos Ritos Azuis. O atual título da Oficina Chefe, Supremo Conselho do Rito Moderno para o Brasil, é bem mais recente, de 1976.

[5] Isso porque os ritos, Moderno e Adonhiramita são azuis, embora o Escocês tenha várias cores, é, predominantemente, vermelho.

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